Desde 1968 · 3 gerações
De mercearia e café em 1968 a marisqueira de referência em Azeitão. O percurso da família Janica, contado marco a marco.
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Onde tudo começou
A mercearia e o Café Janica · 6 de dezembro de 1968
A 6 de dezembro de 1968, numa manhã fria de outono que trazia a promessa de ventos de mudança a Portugal, um jovem casal dava o passo mais audaz das suas vidas. No coração de Brejos de Azeitão, uma terra onde o tempo parecia correr mais devagar, abriam-se as portas de uma pequena mercearia e de um modesto café.
Naquele Portugal de finais de 1968, o país vivia em suspenso. Marcello Caetano tinha assumido o governo há poucos meses, sucedendo a Salazar, e pairava no ar uma vaga de incerteza e uma tímida esperança que os jovens empresários sentiam na pele. O futuro era um ponto de interrogação, moldado pelo peso do regime e pela distância da Guerra Colonial que tocava tantas famílias. Mas a inquietação da época, em vez de os travar, serviu-lhes de impulso.
Ali, o “marketing” não se fazia com cartazes luminosos ou anúncios na RTP, que ainda transmitia a preto e branco. O verdadeiro motor do negócio era a proximidade, o passar da palavra e a confiança do olho no olho. Numa época em que os estabelecimentos comerciais ganhavam a alma e o nome dos seus proprietários, aquele novo ponto de encontro da terra não precisou de grandes estudos de mercado para encontrar a sua identidade.
Ele, homem estimado e popular, era conhecido por todos na região como o “Janica”, uma alcunha que herdara dos seus tempos e cumplicidades no mundo da caça. Foi de forma natural, com a entrada e saída dos clientes, desde o balcão da mercearia, passando pelo café com o cheiro a café fresco, que o povo batizou o espaço.
Nascia assim o Café Janica, gravando na história de Azeitão um nome que, contra todas as incertezas daquele ano de 1968, ficaria ligado para sempre à identidade da atual Casa.
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Anos 70 aos 2000
O café renova-se: uma nova identidade em quase 30 anos
A travessia das décadas de 70, 80 e 90 trouxe consigo a banda sonora da mudança e Portugal abria-se, finalmente, ao mundo. Acompanhando o pulsar dos tempos, o negócio da família soube transformar-se. A velha mercearia, que tinha sido o pilar dos primeiros anos da Casa, foi cedendo o protagonismo ao café, que ganhava uma energia nova e pedia espaço para crescer.
O ano de 1985 ditou um novo capítulo nesta história, com a entrada da segunda geração na liderança do negócio. Os filhos dos fundadores começaram a assumir a casa, uns na cozinha, outros ao lado do “Janica” no balcão do café, e a sociedade da gerência alargou-se. Para reforçar a equipa e os sabores da casa, juntou-se à cozinha uma familiar próxima, que permanece ao lado da família desde então. Foi nesta altura que começaram a servir-se os primeiros petiscos tradicionais, um passo decisivo para que o espaço se afirmasse de vez na boca de todos como o Café Janica.
Com esta nova energia, o café renovou-se e deu lugar a um vibrante salão de jogos. Num ápice, as conversas de balcão passaram a ser acompanhadas pelo ritmo frenético dos matraquilhos, o bater certeiro das bolas de snooker, a pontaria nas máquinas de setas e as luzes coloridas e sonoras dos flippers.
Entre os anos 80 e a viragem para o novo milénio, o espaço tornou-se o verdadeiro epicentro da juventude de Brejos de Azeitão e arredores. Os fins-de-semana ganharam outra vida com os torneios renhidos que ali se organizavam, onde se celebravam amizades e se criavam memórias ao som das novidades da época. Ao longo de mais de vinte anos de história, entre o final do século XX e a chegada dos anos 2000, aquele espaço não parou de crescer, consolidando-se como o ponto de encontro de gerações que ali encontraram a sua segunda casa.
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O novo milénio
A época do caracol e o café da juventude
À medida que o novo milénio avançava, o Café Janica entrava numa das suas eras mais douradas e saborosas. A época do caracol firmou-se, de pedra e cal, como a estação alta da Casa, como o seu melhor prato servido. O segredo dos temperos correu de boca em boca e depressa os clientes começaram a vir de propósito a Azeitão apenas para saborear os célebres petiscos da família.
Com a casa cada vez mais cheia, a terceira geração começou a dar os primeiros passos no negócio. Os mais novos da família passaram a trocar os dias de descanso pelas férias escolares e meses de verão a trabalhar à mesa, assegurando a continuidade do legado familiar. Foi também nesta altura que vários funcionários integraram a equipa do Café como efetivos durante vários anos, alguns deles com um contributo importante para o crescimento e o desenvolvimento da Casa. Tornaram-se pilares desta fase e rostos familiares que muitos clientes ainda hoje recordam com saudade.
Neste início dos anos 2000, o salão de jogos vivia o seu verdadeiro auge. Entre uma imperial e um pires de caracóis, as tardes e noites ganhavam vida ao som do bilhar e dos matraquilhos, consolidando o café, mais do que nunca, como o ponto de encontro obrigatório da juventude da zona.
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2008 a 2015
Travessia, digital e a viragem para os petiscos
Entre 2008 e 2015, o Café Janica soube navegar por um mar de profundas transformações. Foram anos desafiantes para a gerência, marcados pela travessia das crises económicas que afetaram o país, mas a resiliência da família falou mais alto. Para acompanhar os novos tempos, a Casa deu os seus primeiros passos no mundo digital, estreando-se na internet e nas redes sociais para encurtar a distância até aos seus clientes.
O ano de 2015 ditou a grande viragem na configuração do espaço. Com a cozinha a ganhar cada vez mais fama, tomou-se a audaz decisão de retirar o histórico salão de jogos para dar lugar a mais mesas. Os flippers e os matraquilhos deram o seu lugar ao conforto dos clientes e o salão ganhou o aspeto digno de um verdadeiro restaurante de petiscos que o público hoje tão bem conhece.
Esta modernização não só respondeu à enorme procura da altura, como foi o passo estratégico que preparou o terreno para o rebrand que viria a seguir.
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2017 e 2018
O salto para a “Casa Janica”
Entre estes dois anos, a história da Casa ganhou um novo fôlego com a consolidação da terceira geração na liderança. Um jovem da família juntou-se à gestão, trazendo consigo a visão e a energia de quem estava pronto para projetar o negócio para o futuro.
Foi o momento do grande salto: o icónico Café Janica transformou-se oficialmente em Casa Janica. Esta evolução trouxe uma identidade visual renovada, com novos logótipos, ementas redesenhadas e a introdução de novas tendências gastronómicas. A oferta de marisco foi fortemente alargada: ao camarão cozido, à sapateira e à santola que já eram imagem de marca da casa, juntaram-se iguarias como as amêijoas, as lambujinhas, o berbigão e outros petiscos frescos vindos do mar. Foi também por esta altura que novos colaboradores integraram a equipa, revelando-se peças-chave no sucesso dos anos seguintes. Estava desenhado o perfil da Casa atual.
A partir desta viragem, a família de trabalho não parou de crescer com a chegada de vários colaboradores. Aos que ainda hoje se mantêm na equipa e aos que por cá passaram e seguiram novos caminhos, o agradecimento é eterno: sem a dedicação de cada um, a Casa Janica não seria o que é hoje.
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2020 a 2022
Sobreviver à pandemia
Entre 2020 e 2022, o mundo parou e a Casa Janica enfrentou um dos maiores desafios da sua longa história. A pandemia da Covid-19 obrigou a reinventar tudo, da noite para o dia, testando a resiliência de um negócio que já tinha atravessado décadas de história.
Sem poder abrir as portas da forma habitual, a gerência apostou em força no serviço de take-away e nas entregas ao domicílio, levando o conforto dos famosos petiscos diretamente a casa dos clientes. Foi um período de enorme superação, onde a Casa sobreviveu graças à determinação inabalável da família e à dedicação incansável dos colaboradores.
Contra todas as adversidades, a Casa Janica resistiu e voltou, pronta para continuar a receber as gerações de sempre.
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2023
A terceira geração começa a formar-se
O ano de 2023 marcou mais um passo na consolidação do futuro do negócio, com mais um reforço da terceira geração no projeto. Com a estrutura a crescer, a operação diária ganhou maior organização, apoiada por responsáveis dedicados ao dia a dia da Casa.
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2024
A maior transformação física
Em 2024, a Casa Janica avançou para as obras de remodelação mais profundas de toda a sua história. O espaço foi repensado para o futuro: a cozinha foi ampliada para aumentar a capacidade de produção e foram criadas novas salas para acolher os clientes com maior conforto. Apesar de ter sido um ano desafiante e exigente devido aos trabalhos de construção, o esforço compensou e a Casa renasceu, modernizada em ambiente e com uma capacidade de resposta totalmente renovada.
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Presente · 2026
A terceira geração completa-se
O ano de 2026 marca um momento histórico de consagração e renovação. A terceira geração da família junta-se em pleno à estrutura, depois de anos a apoiar o negócio dentro e fora dos bastidores, reforçando a equipa que leva o Restaurante para a frente.
Este capítulo fica também marcado pela passagem de testemunho: a segunda geração, após décadas de dedicação diária e trabalho incansável na liderança, foi entregando a confiança aos filhos e decide agora gozar a merecida reforma.
Com esta transição, a terceira geração da família completa-se de forma definitiva, fundindo visão, dedicação e estratégia num só projeto. É o momento simbólico em que a segunda geração entrega com orgulho o testemunho aos filhos, depois de mais de 40 anos a construir e a consolidar a Casa Janica.
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O futuro
O futuro em aberto
Mais de meio século depois daquela mercearia, o espírito é o mesmo: marisco vivo, petiscos honestos, ambiente de família e os caracóis que continuam a ser referência em Azeitão. O capítulo seguinte fica em aberto. Quem sabe se os nossos filhos não serão os próximos a escrevê-lo.